sábado, 23 de outubro de 2021

Série Assincronia ventilatória - fases do ciclo ventilatório



As assincrônias ventilatórias não são fenômenos raros na prática clínica e muitas vezes é necessário dispor de tempo na frente do ventilador mecânico para realizar ajustes finos. Isso é extremamente importante, pois muitas vezes é mais fácil sedar o paciente correndo o risco aumentar o tempo de VM,  do que realmente corrigir o problema. Além disso,  vale comentar que as assincronias podem estar relacionada com possibilidade de aumento da mortalidade.

O objetivo do blog é criar uma série e discutir as assincronias relacionadas com cada fase do ciclo ventilatório.



Temos 4 fases:

Fase 1: Corresponde ao disparo do ventilador mecânico, ou seja, o esforço que o paciente terá que realizar para vencer o valor pré-regulado da sensibilidade pelo controlador da máquina, para conseguir abrir a válvula inspiratória do VM.

Fase 2: É a fase inspiratória, onde após vencer a primeira etapa que é a fase 1 o ventilador entrega o volume corrente ao paciente. Está fase de entrega de volume corrente é conhecida como fase 2 ou fase inspiratória.

Fase 3: É a fase de transição da inspiração para a expiração chamada de ciclagem. Assim quando o esforço muscular inspiratório do paciente terminar ele inicia uma expiração, portanto temos que adequar o tempo da máquina ao tempo neural do paciente.

Fase 4: É a fase de expiração do paciente quando a válvula expiratória do ventilador está aberta e normalmente o paciente faz uma expiração passiva, porém a casos que isso não ocorre de forma totalmente passiva, por exemplo em broncosespamos.

Aguardem os próximos textos sobre o assunto.


Até a próxima



Fernando Acácio Batista

Fisioterapeuta Intensivista e Gestor do Hospital Sancta Maggiore
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva
Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP
Especislista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto pela Assobrafir-Coffito
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI
Instagram: @profernandobatista1

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Mobilização passiva e representação cortical


Sabe aquela mobilização que fazemos no paciente sedado e em ventilação mecânica?

Nós ouvimos tantos objetivos na época da Universidade e quando migramos para a especialização estes objetivos continuam em nossa cabeça. Na prática clínica sempre que temos um paciente sedado e em ventilação mecânica logo pensamos em mobilizar para evitar retrações osteomioarticulares, porém estes movimentos poderiam gerar algum padrão cortical?

Segundo este estudo sim, pois movimentos passivos de punho geraram padrão motor no cortex de alguns voluntários sadios... Novamente, o estudo mostra padrão cortical e não outros objetivos ok, pois até o momento não temos evidências conclusivas que a mobilização passiva manual poderá gerar alguma alteração em níveis articulares ou musculares. Só mobilização passiva com aparelho específico como o MOTOMED.

Seria este um desfecho importante? Boa leitura...

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10724112





Fernando Acácio Batista

Fisioterapeuta Intensivista do Hospital Sancta Maggiore
Professor da Liga da Fisiointensiva
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva
Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP
Mestrando em Terapia Intensiva pela SOBRATI

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Cinesioterapia respiratória com elevação de MMSS

Este estudo teve como objetivo quantificar se a abdução de ombros juntos com a respiração teria algum efeito sobre a parede torácica e atividade da musculatura na inspiração máxima.  Foram 20 homens que executavam inspirações com ou sem abdução de ombros. Os autores mediram as atividades do diafragma, esternocleido e costais, além dos movimentos do toráx. No estudo utilizaram de marcadores retro-reflectores de infravermelho no toráx e marcadores laterais para avaliação especifica. Os pacientes realizariam inspirações ditas normais e outras profundas com ou sem elevação de braços.


A conclusão foi que ao se elevar os braços no momento da inspiração, notamos aumento da expansão do toráx principalmente superior, mas sem alterações em volumes pulmonares.
Portanto será que nossa cinesioterapia é eficiente para nossos pacientes. Quem sabe a mobilização ainda não seja a saída.

Referência

Fernando Acácio Batista

Fisioterapeuta Intensivista do Hospital Sancta Maggiore
Professor da Liga da Fisiointensiva
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva
Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP
Mestrando em Terapia Intensiva pela SOBRATI

domingo, 10 de outubro de 2021

Perda de peso no paciente com DPOC

Temos um vídeo sobre o assunto: 




A perda de peso na DPOC tem sua descrição na década de 60 e está associada a menor sobrevida. Sua prevalência oscila entre 26% a 47% dos pacientes com DPOC e podemos adicionar que uma perda de peso corporal abaixo de 90% do peso ideal tem prognóstico negativos, independente da classificação da doença.

 

   Em contrapartida pacientes com IMC menor que 25 kg/m2 apresentam sobrevida quando ocorre ganho de peso. 

 

   Inúmeras etiologias são propostas para essa deficiência nutricional, porém com mecanismos ainda obscuros e não totalmente esclarecidos. Acredita-se que o perfil elevado de citocinas pró- inflamatórias tenha relação com essa perda de peso, pois contribui para o hipermetabolismo, para diminuição da ingestão alimentar e com isso instala-se as alterações nutricionais.

 

   Vale destacar que citocinas como TNF alfa e interleucina 1 causam anorexia e estimulam a proteólise através da ativação enzimática e aceleração da ubiquitina proteosoma que está presente no músculo esquelético.

 

   Existem alterações no metabolismo da leptina, com isso podemos também ter redução da ingestão alimentar.

 

   A hipoxemia em estágios avançados da doença podem estimular ainda mais mediadores inflamatórios e ainda redução na testosterona, aumentando mais ainda a perda de peso e músculos.

 

   Para o tratamento nem todos os pacientes responderão bem a suplementação alimentar e uso de esteroides anabólicos, porém quando ofertados para grupos bem selecionados podemos colher bons resultados de ambas terapias. Mas ainda assim o uso de esteroides anabólicos  não trouxe melhora na tolerância do exercício. Portanto fica claro que a terapia nutricional precisa ser acompanhada de um programa de exercícios.








Fernando Acácio Batista 
Fisioterapeuta Intensivista 
Gestor do Hospital Sancta Maggiore 
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva 
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva 
Título de Especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto pelo COFFITO / ASSOBRAFIR Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP 
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP 
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI 
http://lattes.cnpq.br/3951715682086759

TMI após desmame

Sabemos que os pacientes que são submetidos a ventilação mecânica apresentam perda de força muscular inspiratória, mas será que o treinamento inspiratório após ventilação mecânica poderá proporcionar algum desfecho importante?

Para isso foi realizado um estudo randomizado com avaliador cedo após 48 horas do desmame bem sucedido com 70 participantes, e destes todos tiveram uma duração na ventilação mecânica maior de 7 dias. Eles receberam TMI uma vez por dia por 5 dias na semana, em um total de 2 semanas de treino.


A divisão foi com 34 pacientes que realizavam TMI e 36 no grupo controle, assim o grupo TMI demonstrou um aumento na pressão inspiratória (17%, controle: 6%, diferença média: 11%, p = 0,02). A melhoria na qualidade de vida foi maior no grupo de treinamento (14% vs 2%, diferença média de 12%, p = 0,03). A mortalidade hospitalar foi maior no grupo de treinamento (4 vs 0, 12% vs 0%, p = 0,051).

Nenhuma das mortes estava aparentemente relacionada com o TMI ou complicações respiratórias. E as limitações do estudo foi uma perda de 17% no tamanho da amostra, o dispositivo que não contemplou carga para dois participantes , por ter uma PImáx de valores altos e sem condições de treino com uma carga de 50% e em 16 pacientes utilizaram o valor máximo de carga já no inicio do TMI onde podemos subestimar o potencial efeito do treinamento.




Qual a opinião de vocês???




Fernando Acácio Batista

Fisioterapeuta Intensivista do Hospital Sancta Maggiore
Fisioterapia Emergêncista (ERWS)
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva
Professor do Aperfeiçoamento teórico da Liga da Fisiointensiva
Professor da Universidade Anhanguera
Professor convidado da Especialização em Cardiorrespiratória da Unicid
Membro da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva
Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI







Movimento laríngeo em treino inspiratório

Nest post vamos falar rapidamente sobre o estudo Laryngeal Movements During Inspiratory Muscle Training in Healthy Subjects que recrutou vinte voluntários saudáveis que realizaram análise com laringoscopia e gravação de vídeo durante a execução de um programa de TMI resistivo com Respifit S. Eles eram expostos a duas resistências pressóricas com 60 a 80% da Pimáx;




Os autores queriam verificar se durante o TMI (Treinamento muscular inspiratório) ocorreria abdução de laringe e verificaram que com pressões de 80% da PImax (Pressão inspiratória máxima), os movimentos da laringe não obtiveram êxito para ser avaliada em um indivíduo. Já a abdução da laringe foi observada em 10 (53%) dos indivíduos, sendo seis atingindo um grau máximo e quatro atingindo extensão moderada. Em uso de pressões de 60-80% da PImáx, a abdução foi observada em 18 (90%) sujeitos, sete atingindo uma extensão máxima e 11 atingindo uma extensão moderada.






Os autores concluíram que o TMI pode produzir abdução de laringe em indivíduos saudáveis ​​e estes programas poderão contribuir positivamente em pacientes que sofrem de adução laríngea durante o exercício. 




Até a próxima.



Fernando Acácio Batista

Fisioterapeuta Intensivista do Hospital Sancta Maggiore
Fisioterapia Emergêncista (ERWS)
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva
Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI


Mecânica pulmonar após aspiração traqueal

O estudo Brasileiro Comportamento da Mecânica Pulmonar após a Aplicação de Protocolo de Fisioterapia Respiratória e Aspiração Traqueal em Pacientes com Ventilação Mecânica Invasiva foi realizado de forma prospectiva e aleatória, controlado do tipo cruzado que incluíram pacientes com mais de 48 horas em ventilação mecânica invasiva (VMI).

O protocolo de Fisioterapia consistiu em técnicas de higiene brônquica com instilação de soro fisiológico para umidificar as secreções e aspiração traqueal.
O outro grupo recebeu apenas aspiração traqueal e ambos os atendimento foram realizados pela mesma Fisioterapeuta.

Os resultados dos 12 pacientes que completaram o estudos foram:

  • Não houve diferença entre os grupos em relação à Cdyn;
  • Não houve diferença entre os grupos em relação a volume corrente e volume-minuto;. 

  • A Resistência diminuiu após (de 10,4 ± 3 cmH2 O/L/seg para 8,9 ± 2 cmH2 O/L/seg; p < 0,02), 30 minutos após (de 10,4 ± 3 cmH2 O/L/seg para 9 ± 2 cmH2 O/L/seg; p < 0,01) e 120 min após (de 10,4 ± 3 cmH2 O/L/seg para 9 ± 2 cmH2 O/L/seg; p < 0,03) a aplicação do protocolo de Fisioterapia. 
  • Já quando comparamos com a aspiração traqueal isolado foi menor nos momentos 30 (9 ± 2 cmH2 O/L/seg versus 10,2 ± 2 cmH2 O/L/seg; p < 0,04) e 120 minutos (9 ± 2 cmH2 O/L/segundo versus 10,4 ± 3 cmH2 O/L/seg; p < 0,04)


Os autores concluíram que o protocolo de Fisioterapia aplicado é mais eficiente para a redução da resistência de vias aéreas do que a aspiração traqueal isolada.

Lembrando que a alteração da resistência de vias aéreas poderão trazer alterações na mecânica pulmonar em pacientes em uso de ventilação mecânica, estando sedados ou não e que o procedimento de técnicas de Fisioterapia respiratória fazem parte do arsenal dos profissionais no Brasil.

O que acham?



Até a próxima...




Fernando Acácio Batista

Fisioterapeuta Intensivista do Hospital Sancta Maggiore
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva
Professor do Aperfeiçoamento teórico da Liga da Fisiointensiva
Membro da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva
Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP
Mestrando em Terapia Intensiva pelo IBRATI




sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Aspiração em pacientes em ventilação mecânica


Aspirando o paciente em ventilação mecânica invasiva


É muito comum observarmos em nossa prática clínica o uso indiscriminado da aspiração de secreções em paciente em uso de VM, onde se tornou rotina pelo menos uma aspiração por período.

Isso poderá trazer algum benefício ao paciente?
Se o paciente apresentar indicações para tal procedimento é de extrema importância a aspiração, mas muitos pacientes sequer apresentam e logo são submetidos tal procedimento de horário. Não podemos esquecer que o procedimento invasivo pode ocasionar lesões na mucosa traqueal, dor, desconforto, infecção e alterações hemodinâmicas, além de alterações em gases arteriais, broncoespasmo, aumento da PIC e atelectasias.

É importante a adequada avaliação do paciente para tomada de decisão entre aspirar ou não aspirar.

Existem indicações claras para tal procedimento que são:
- Padrão serrilhado no slope fluxo-volume;
- Aumento da pressão de pico na modalidade VCV;
- Diminuição do volume corrente na modalidade PCV;
- Deteriorização da saturação de oxigênio;
- Secreções visíveis nas vias aéreas;
- Suspeita de aspiração gástrica ou de vias aéreas superiores;
- Necessidade de coleta de secreção.

Portanto vamos aspirar apenas quando necessário e lembrar que este procedimento é multiprofissional...






Fernando Acácio Batista 
Fisioterapeuta Intensivista Gestor do Hospital Sancta Maggiore 
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva 
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva 
Título de Especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto pelo COFFITO / ASSOBRAFIR Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP 
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP 
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI 
http://lattes.cnpq.br/3951715682086759

Perda de força muscular periférica no DPOC

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PERDA DE FORÇA MUSCULAR PERIFÉRICA NO DPOC




Os pacientes com DPOC apresentam impacto significativo da estrutura e função muscular periférica no estado geral de saúde.


- Força e massa muscular: A fraqueza muscular é proporcional à perda de massa muscular, e existem evidências de que os pacientes com DPOC apresentam redução significativa de força de membros superiores e inferiores quando são comparados com congêneres controles. A área de secção transversa da coxa é significativamente menor em pacientes com DPOC, além disso a redução de força muscular é predominante nos membros inferiores


- Morfologia muscular: A redução da atividade contráctil do músculo influencia o trofismo e o balanço entre síntese e degradação musculares. Como conseqüência do desuso e da imobilização prolongados, há predomínio de perda de fibras de contração lenta em indivíduos saudáveis. Além da redistribuição de fibras musculares observada em pacientes com DPOC, há evidências de que a área de secção transversal, tanto das fibras de contração lenta quanto das de contração rápida, está significativamente reduzida nos pacientes com DPOC.


- Bioenergética muscular: Os pacientes com DPOC apresentam redução significativa de enzimas oxidativas e manutenção, ou aumento de enzimas glicolíticas. Outra alteração bioenergética relatada em pacientes com DPOC é a redução do metabolismo da fosfocreatina muscular, um dos principais fatores envolvidos no metabolismo anaeróbio alático. Em resumo, pacientes com DPOC apresentam baixa capacidade oxidativa, capacidade glicolítica normal ou aumentada e metabolismo anaeróbio alático diminuído. A redução do metabolismo anaeróbio alático, responsável por atividades de alta intensidade e curta duração, associada à redução da atividade oxidativa, reforça o predomínio do sistema anaeróbio láctico em pacientes com DPOC, o que resulta em lactacidose precoce e intolerância ao exercício.


https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/tBx4LPB6g5zZHLbdRzCnsRs/?lang=pt






Fernando Acácio Batista 
Fisioterapeuta Intensivista 
Gestor do Hospital Sancta Maggiore 
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva 
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva 
Título de Especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto pelo COFFITO / ASSOBRAFIR Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP 
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP 
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI 
http://lattes.cnpq.br/3951715682086759

domingo, 22 de setembro de 2019

Qual a melhor interface para o CPAP em bebês?

Qual a melhor interface para o CPAP em bebês?

A pressão positiva contínua nas vias aéreas por bolhas (CPAP de bolhas ou bubble CPAP) é um suporte respiratório não invasivo fornecido a um recém-nascido com respiração espontânea para manter o volume pulmonar durante a expiração1, o que reduz a necessidade de ventilação mecânica invasiva e suas respectivas complicações2. Mas qual seria a melhor interface a se utilizar para fornecer esse importante suporte?
            No mês passado (agosto/2019) o neonatologista indiano Dr. Deepak Sharma, com sua equipe médica, publicou um ensaio comparando as interfaces mais comumente utilizadas: a pronga (Fig. 1) e a máscara nasal (Fig. 2). Foram randomizados 178 bebês prematuros (26 – 32 semanas de IG), sendo que 90 foram colocados em máscara e 88 em pronga3. O critério de inclusão foi apresentar desconforto respiratório (DR) nas 6 primeiras horas de vida. O DR foi considerado quando: taquipneia (>60 rpm), tiragem intercostal ou tiragem sub-diafragmática, sibilo, BSA (Silverman-Andersen) ≥ 3 e cianose. Alguns critérios de exclusão foram considerados, tais como hérnia diafragmática, fístula traqueo-esofágica, fenda palatina, atresia de coanas, drive precário ou apneia, Apgar ≤ 3 no 5º minuto, choque com necessidade de DVA, etc. O desfecho primário avaliado foi a necessidade de ventilação mecânica invasiva (VMI) nas primeiras 72hs.

                                                  Fig. 1
           
            Em ambos os grupos foi realizado o bubble CPAP. Na sala de parto os bebês eram ventilados com máscara facial e peça em T, sendo transportados para UTI NEO após estabilização, onde então era aplicado o CPAP. A PEEP inicial utilizada era de 5cmH2O, sendo aumentada para 7 conforme necessidade. A FiO2 era a mínima suficiente para manter SpO2 alvo (90 – 95%).
Os que precisaram de FiO2 maior que 30% receberam surfactante pela técnica INSURE. Após 6hs, caso a FiO2 se mantivesse acima de 30% era feita uma 2ª dose e assim sucessivamente até o limite de 3 doses. Nos casos de apneia era feita uma dose ataque de cafeína de 20mg/Kg, com manutenção de 5ml/Kg/dia.
O desmame do CPAP se deu da seguinte forma:
1º. Redução da FiO2 de 5 em 5 até 30%;
2º. Redução da PEEP de 1 em 1 até 4;
3º. Redução da FiO2 de 3 em 3 até 21%.
Após o desmame o CPAP era retirado caso o bebê permanecesse 24hs sem apneia, hemoestável, drive satisfatório, BSA ≤ 2 e mantendo SpO2 alvo. Não houve diferença nos cuidados entre os grupos, ou seja, apenas a interface diferia.
A falha no CPAP e necessidade de VMI era considerada nos seguintes casos:
a)    SpO2 < 90% com FiO2 > 70% por 1 hora;
b)    Tiragens persistentes;
c)    pH < 7.20 e PCO2 > 60;
d)    apneia > 20 seg. ou mais de 3 apneias/h.

                                         Fig. 2

O grupo da máscara nasal teve menos falha de CPAP (16,6% x 29,5%), portanto menos necessidade de VMI, além de menor incidência de trauma nasal e broncodisplasia pulmonar (BDP). Os autores atribuíram a menor taxa de falha à uma melhor entrega de pressão na máscara quando comparada à pronga. Estes também enfatizam que seus desfechos negativos foram menores que o do estudo clássico de Morley et al (2008), onde quase 34% dos 307 prematuros ventilados no CPAP morreram ou desenvolveram BDP. Todavia neste estudo4 os bebês eram mais prematuros (25 – 28 semanas) e tinham peso menor também. Outro dado interessante deste clássico é que as crianças do grupo CPAP tiveram mais pneumotórax que o grupo que foi intubado, o que segundo o Dr. Felipe Rossi, do Albert Einstein, pode ter se dado pelo maior esforço respiratório realizado pelos bebês ventilados não invasivamente. Em nossa opinião um dado que vale salientar é que no grupo CPAP foi utilizada PEEP inicial de 8cmH2O.
Dr. Sharma e seus colaboradores citam ainda 2 ensaios com resultados a favor da máscara nasal em relação à pronga e outros 2 onde não se encontrou diferença significativa. Em seguida comentam sobre uma revisão sistemática publicada ano passado (2018) na Pediatric Pulmonology que também favorece a máscara nasal quanto ao percentual de sucesso.
Algo que precisa ser destacado veementemente é uma frase do lendário neonatologista Dr. Wung (foto abaixo), mundialmente reconhecido por suas publicações sobre bubble CPAP por pronga nasal desde 1976, e sobretudo pela baixíssima incidência de falha, mortalidade, BDP e VMI em seu serviço em NY (EUA): “Nem toda forma de ofertar o CPAP é igual”. Isso nos leva a duvidar sobre a qualidade metodológica da aplicação do CPAP no estudo aqui comentado, visto terem encontrado lesão de septo nasal em 43% dos bebês no grupo CPAP, contra 16% no grupo máscara. Além disso, trazem na discussão uma revisão sistemática de 2018 que sugere a aplicação de curativos de barreira (o popular “porquinho”) como forma de prevenção da lesão septal, o que no serviço do Dr. Wung só é empregado para minimizar o escape, isso quando o mesmo acontece a ponto de comprometer a ventilação. O que de fato previne a lesão do septo é manter a pronga afastada do mesmo, bastando para isso a instalação adequada do dispositivo, de preferência envolvendo-o com velcro.
            Outro achado incomum foi a maior incidência de BDP no grupo pronga, sendo que são citados 5 estudos com resultado contrário a este. Ressalto ainda que os critérios de falha deste trabalho diferem dos que costumamos utilizar tomando como referência o protocolo da McGill University (Fig. 3), aplicado na UTI neonatal do Montreal Children´s Hospital, no Canadá (créditos ao amigo pessoal e brilhante neonatologista Dr. Guilherme Sant’Anna).

                                      Fig. 3
                     
                 Seria interessante realizar investigações também em recém-nascidos a termo (RNT) que necessitam de ventilação mecânica (cardiopatas, por exemplo), visto que os estudos se limitam aos prematuros, em sua grande maioria.
            Em suma, pode-se inferir que independente de se utilizar a pronga nasal ou a máscara nasal, se se encosta a interface no septo vai necrosar o mesmo (independente da presença do porquinho); se se utiliza cânula reta vai lesar mucosa de via aérea superior e reduzir eficácia da terapia; e se não se fixar de forma adequada a interface, a mesma pode sair da narina ao mínimo manuseio ou movimentação espontânea da criança, aumentando o esforço respiratório a cada evento e reduzindo a chance de sucesso.
           

Paulo Andrade
Mestre em Doenças Tropicais
Fisioterapeuta intensivista do Hospital Universitário HUJBB
Fisioterapeuta da UTI neonatal do Hospital de Clínicas HCGV
Docente de Pós-Graduações em Terapia Intensiva
Orientador da LAFIPEN



Mellina de Aviz Menezes
Acadêmica de Fisioterapia (ESAMAZ)
Ligante da LAFIPEN


REFERÊNCIAS


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Meu Paciente está com uma infecção multirresistente e agora

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