sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Aspiração em pacientes em ventilação mecânica


Aspirando o paciente em ventilação mecânica invasiva


É muito comum observarmos em nossa prática clínica o uso indiscriminado da aspiração de secreções em paciente em uso de VM, onde se tornou rotina pelo menos uma aspiração por período.

Isso poderá trazer algum benefício ao paciente?
Se o paciente apresentar indicações para tal procedimento é de extrema importância a aspiração, mas muitos pacientes sequer apresentam e logo são submetidos tal procedimento de horário. Não podemos esquecer que o procedimento invasivo pode ocasionar lesões na mucosa traqueal, dor, desconforto, infecção e alterações hemodinâmicas, além de alterações em gases arteriais, broncoespasmo, aumento da PIC e atelectasias.

É importante a adequada avaliação do paciente para tomada de decisão entre aspirar ou não aspirar.

Existem indicações claras para tal procedimento que são:
- Padrão serrilhado no slope fluxo-volume;
- Aumento da pressão de pico na modalidade VCV;
- Diminuição do volume corrente na modalidade PCV;
- Deteriorização da saturação de oxigênio;
- Secreções visíveis nas vias aéreas;
- Suspeita de aspiração gástrica ou de vias aéreas superiores;
- Necessidade de coleta de secreção.

Portanto vamos aspirar apenas quando necessário e lembrar que este procedimento é multiprofissional...






Fernando Acácio Batista 
Fisioterapeuta Intensivista Gestor do Hospital Sancta Maggiore 
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva 
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva 
Título de Especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto pelo COFFITO / ASSOBRAFIR Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP 
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP 
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI 
http://lattes.cnpq.br/3951715682086759

Perda de força muscular periférica no DPOC

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PERDA DE FORÇA MUSCULAR PERIFÉRICA NO DPOC




Os pacientes com DPOC apresentam impacto significativo da estrutura e função muscular periférica no estado geral de saúde.


- Força e massa muscular: A fraqueza muscular é proporcional à perda de massa muscular, e existem evidências de que os pacientes com DPOC apresentam redução significativa de força de membros superiores e inferiores quando são comparados com congêneres controles. A área de secção transversa da coxa é significativamente menor em pacientes com DPOC, além disso a redução de força muscular é predominante nos membros inferiores


- Morfologia muscular: A redução da atividade contráctil do músculo influencia o trofismo e o balanço entre síntese e degradação musculares. Como conseqüência do desuso e da imobilização prolongados, há predomínio de perda de fibras de contração lenta em indivíduos saudáveis. Além da redistribuição de fibras musculares observada em pacientes com DPOC, há evidências de que a área de secção transversal, tanto das fibras de contração lenta quanto das de contração rápida, está significativamente reduzida nos pacientes com DPOC.


- Bioenergética muscular: Os pacientes com DPOC apresentam redução significativa de enzimas oxidativas e manutenção, ou aumento de enzimas glicolíticas. Outra alteração bioenergética relatada em pacientes com DPOC é a redução do metabolismo da fosfocreatina muscular, um dos principais fatores envolvidos no metabolismo anaeróbio alático. Em resumo, pacientes com DPOC apresentam baixa capacidade oxidativa, capacidade glicolítica normal ou aumentada e metabolismo anaeróbio alático diminuído. A redução do metabolismo anaeróbio alático, responsável por atividades de alta intensidade e curta duração, associada à redução da atividade oxidativa, reforça o predomínio do sistema anaeróbio láctico em pacientes com DPOC, o que resulta em lactacidose precoce e intolerância ao exercício.


https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/tBx4LPB6g5zZHLbdRzCnsRs/?lang=pt






Fernando Acácio Batista 
Fisioterapeuta Intensivista 
Gestor do Hospital Sancta Maggiore 
Co- fundador e Professor da Liga da Fisiointensiva 
Professor da Especialização em Fisioterapia Intensiva da Liga da Fisiointensiva 
Título de Especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto pelo COFFITO / ASSOBRAFIR Especialização em Fisioterapia Respiratória pela ISCMSP 
Especialização em Fisioterapia em UTI pelo HFMUSP 
Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI 
http://lattes.cnpq.br/3951715682086759

domingo, 22 de setembro de 2019

Qual a melhor interface para o CPAP em bebês?

Qual a melhor interface para o CPAP em bebês?

A pressão positiva contínua nas vias aéreas por bolhas (CPAP de bolhas ou bubble CPAP) é um suporte respiratório não invasivo fornecido a um recém-nascido com respiração espontânea para manter o volume pulmonar durante a expiração1, o que reduz a necessidade de ventilação mecânica invasiva e suas respectivas complicações2. Mas qual seria a melhor interface a se utilizar para fornecer esse importante suporte?
            No mês passado (agosto/2019) o neonatologista indiano Dr. Deepak Sharma, com sua equipe médica, publicou um ensaio comparando as interfaces mais comumente utilizadas: a pronga (Fig. 1) e a máscara nasal (Fig. 2). Foram randomizados 178 bebês prematuros (26 – 32 semanas de IG), sendo que 90 foram colocados em máscara e 88 em pronga3. O critério de inclusão foi apresentar desconforto respiratório (DR) nas 6 primeiras horas de vida. O DR foi considerado quando: taquipneia (>60 rpm), tiragem intercostal ou tiragem sub-diafragmática, sibilo, BSA (Silverman-Andersen) ≥ 3 e cianose. Alguns critérios de exclusão foram considerados, tais como hérnia diafragmática, fístula traqueo-esofágica, fenda palatina, atresia de coanas, drive precário ou apneia, Apgar ≤ 3 no 5º minuto, choque com necessidade de DVA, etc. O desfecho primário avaliado foi a necessidade de ventilação mecânica invasiva (VMI) nas primeiras 72hs.

                                                  Fig. 1
           
            Em ambos os grupos foi realizado o bubble CPAP. Na sala de parto os bebês eram ventilados com máscara facial e peça em T, sendo transportados para UTI NEO após estabilização, onde então era aplicado o CPAP. A PEEP inicial utilizada era de 5cmH2O, sendo aumentada para 7 conforme necessidade. A FiO2 era a mínima suficiente para manter SpO2 alvo (90 – 95%).
Os que precisaram de FiO2 maior que 30% receberam surfactante pela técnica INSURE. Após 6hs, caso a FiO2 se mantivesse acima de 30% era feita uma 2ª dose e assim sucessivamente até o limite de 3 doses. Nos casos de apneia era feita uma dose ataque de cafeína de 20mg/Kg, com manutenção de 5ml/Kg/dia.
O desmame do CPAP se deu da seguinte forma:
1º. Redução da FiO2 de 5 em 5 até 30%;
2º. Redução da PEEP de 1 em 1 até 4;
3º. Redução da FiO2 de 3 em 3 até 21%.
Após o desmame o CPAP era retirado caso o bebê permanecesse 24hs sem apneia, hemoestável, drive satisfatório, BSA ≤ 2 e mantendo SpO2 alvo. Não houve diferença nos cuidados entre os grupos, ou seja, apenas a interface diferia.
A falha no CPAP e necessidade de VMI era considerada nos seguintes casos:
a)    SpO2 < 90% com FiO2 > 70% por 1 hora;
b)    Tiragens persistentes;
c)    pH < 7.20 e PCO2 > 60;
d)    apneia > 20 seg. ou mais de 3 apneias/h.

                                         Fig. 2

O grupo da máscara nasal teve menos falha de CPAP (16,6% x 29,5%), portanto menos necessidade de VMI, além de menor incidência de trauma nasal e broncodisplasia pulmonar (BDP). Os autores atribuíram a menor taxa de falha à uma melhor entrega de pressão na máscara quando comparada à pronga. Estes também enfatizam que seus desfechos negativos foram menores que o do estudo clássico de Morley et al (2008), onde quase 34% dos 307 prematuros ventilados no CPAP morreram ou desenvolveram BDP. Todavia neste estudo4 os bebês eram mais prematuros (25 – 28 semanas) e tinham peso menor também. Outro dado interessante deste clássico é que as crianças do grupo CPAP tiveram mais pneumotórax que o grupo que foi intubado, o que segundo o Dr. Felipe Rossi, do Albert Einstein, pode ter se dado pelo maior esforço respiratório realizado pelos bebês ventilados não invasivamente. Em nossa opinião um dado que vale salientar é que no grupo CPAP foi utilizada PEEP inicial de 8cmH2O.
Dr. Sharma e seus colaboradores citam ainda 2 ensaios com resultados a favor da máscara nasal em relação à pronga e outros 2 onde não se encontrou diferença significativa. Em seguida comentam sobre uma revisão sistemática publicada ano passado (2018) na Pediatric Pulmonology que também favorece a máscara nasal quanto ao percentual de sucesso.
Algo que precisa ser destacado veementemente é uma frase do lendário neonatologista Dr. Wung (foto abaixo), mundialmente reconhecido por suas publicações sobre bubble CPAP por pronga nasal desde 1976, e sobretudo pela baixíssima incidência de falha, mortalidade, BDP e VMI em seu serviço em NY (EUA): “Nem toda forma de ofertar o CPAP é igual”. Isso nos leva a duvidar sobre a qualidade metodológica da aplicação do CPAP no estudo aqui comentado, visto terem encontrado lesão de septo nasal em 43% dos bebês no grupo CPAP, contra 16% no grupo máscara. Além disso, trazem na discussão uma revisão sistemática de 2018 que sugere a aplicação de curativos de barreira (o popular “porquinho”) como forma de prevenção da lesão septal, o que no serviço do Dr. Wung só é empregado para minimizar o escape, isso quando o mesmo acontece a ponto de comprometer a ventilação. O que de fato previne a lesão do septo é manter a pronga afastada do mesmo, bastando para isso a instalação adequada do dispositivo, de preferência envolvendo-o com velcro.
            Outro achado incomum foi a maior incidência de BDP no grupo pronga, sendo que são citados 5 estudos com resultado contrário a este. Ressalto ainda que os critérios de falha deste trabalho diferem dos que costumamos utilizar tomando como referência o protocolo da McGill University (Fig. 3), aplicado na UTI neonatal do Montreal Children´s Hospital, no Canadá (créditos ao amigo pessoal e brilhante neonatologista Dr. Guilherme Sant’Anna).

                                      Fig. 3
                     
                 Seria interessante realizar investigações também em recém-nascidos a termo (RNT) que necessitam de ventilação mecânica (cardiopatas, por exemplo), visto que os estudos se limitam aos prematuros, em sua grande maioria.
            Em suma, pode-se inferir que independente de se utilizar a pronga nasal ou a máscara nasal, se se encosta a interface no septo vai necrosar o mesmo (independente da presença do porquinho); se se utiliza cânula reta vai lesar mucosa de via aérea superior e reduzir eficácia da terapia; e se não se fixar de forma adequada a interface, a mesma pode sair da narina ao mínimo manuseio ou movimentação espontânea da criança, aumentando o esforço respiratório a cada evento e reduzindo a chance de sucesso.
           

Paulo Andrade
Mestre em Doenças Tropicais
Fisioterapeuta intensivista do Hospital Universitário HUJBB
Fisioterapeuta da UTI neonatal do Hospital de Clínicas HCGV
Docente de Pós-Graduações em Terapia Intensiva
Orientador da LAFIPEN



Mellina de Aviz Menezes
Acadêmica de Fisioterapia (ESAMAZ)
Ligante da LAFIPEN


REFERÊNCIAS


 Venha fazer parte e seja um membro da Liga da Fisiointensiva com este projeto que possui dois grandes objetivos: - O primeiro é a curadoria de conteúdos básicos e fundamentais para a realidade do fisioterapeuta intensivista, onde selecionamos os melhores professores com conhecimento de causa nas rotinas hospitalares. - O segundo é ajudar na atualização avançada acerca dos diversos temas da Fisioterapia Hospitalar trazendo curso com diversos profissionais. Bem vindo ao projeto mais inovador no cenário educacional da Fisioterapia intensiva do Brasil. O Clube de membros Fisioacademy MemberShip Clique no link e saiba mais: http://bit.ly/2yFEc57membersliga _________________________________________________________________________________

domingo, 4 de agosto de 2019

TMI em pediatria – Parte II

TMI em pediatria – Parte II

            No primeiro post da série mostramos um relato de 2 casos de lactentes cardiopatas que foram treinados de forma distinta, mas que obtiveram êxito quanto ao ganho de força muscular inspiratória e consequentemente no desmame ventilatório. Falemos agora sobre as crianças maiores...
O primeiro estudo interessante sobre a temática em questão tem mais de 10 anos e dividiu 50 crianças asmáticas em 2 grupos: GE, que realizou TMI com Treshold (Figs. 1 e 2) com carga de 40%; e GC, que realizou consultas médicas mensais com educação em saúde baseada em orientações sobre a doença e seu controle, mantendo tratamento clínico medicamentoso1. Os resultados são impressionantes: o GE teve um aumento de 127% na PiMAX, 62% na PeMAX e de 80% no PFE! Este último parâmetro traduz a efetividade da tosse da criança. Por outro lado, o GC teve apenas um discreto aumento de 11% no PFT, não havendo aumento significativo nas pressões inspiratória e expiratória.
                                             Fig. 1

Em 2017 tivemos duas revisões, sendo a primeira voltada para um tema deveras polêmico: TMI em crianças com doença neuromuscular. O objetivo foi avaliar a segurança da técnica e sua efetividade, visto que em se tratando desta população a principal dúvida que nos surge é: “a imposição de carga pode acelerar a degradação proteica da musculatura ventilatória?”. Óbvio que a resposta para tal questionamento provavelmente depende de uma série de fatores, entre os quais a patologia da criança, estádio da doença em que se inicia o treino, bem como intensidade e volume de treino ofertados. A revisão encontrou 09 trabalhos, 02 deles ainda em curso. A maioria dos estudos (6) não encontrou nenhuma melhora nos testes de função pulmonar com o TMI, apesar de não ter sido relatado nenhum evento adverso com a utilização da técnica2.


                                          Fig. 2

A outra pesquisa de 2017 foi desenvolvida por fisioterapeutas brasileiros e consistiu em uma revisão integrativa que reuniu 17 artigos para identificar em que público pediátrico o TMI vinha sendo empregado, além dos principais protocolos de treino. A maioria dos estudos investigou o TMI em crianças com alguma doença neuromuscular, sendo a mais prevalente a Distrofia Muscular de Duchenne (DMD). Quanto aos protocolos a diferença entre os estudos foi demasiada grande. A carga inicial variou de 30 a 80% da PiMAX e a duração do treino variou de 3 semanas a 2 anos. A frequência também teve discrepância, contudo em 8 artigos o treino foi realizado 2 x ao dia3.

                               Fig. 3

Por fim, ano passado colegas brasileiros publicaram um ensaio clínico de crianças com Paralisia Cerebral, onde randomizaram 25 crianças, sendo que 13 foram alocadas no grupo tratamento. A metodologia empregada e desfechos analisados são dignos de louvor. O grupo tratamento usou Treshold com carga de 30% e grupo controle fez uma terapia simulada utilizando o mesmo equipamento, porém com carga de 5%. Ambos os grupos treinaram por 6 semanas. O desfecho primário avaliado foi o controle de tronco, com melhor resultado para o grupo tratamento. Também tiveram diferença estatística significante entre os grupos os seguintes desfechos secundários: força muscular inspiratória, atividades de vida diária, capacidade de exercício funcional e qualidade de vida, todos otimizados no grupo tratamento4.
                                         Fig. 4

Com isto observamos os benefícios comprovados do TMI ainda em uma pequena população (asmáticos e neuropatas), carecendo de mais estudos em outras patologias, bem como nas crianças criticamente enfermas, dependentes ou não de ventilação mecânica invasiva. Em 2017 um grupo de 10 pesquisadores taiwaneses avaliaram por ultrassonografia a espessura do diafragma e a fração de espessamento diafragmático (FED) de crianças em ventilação mecânica invasiva, inclusive imediatamente após a extubação. Este último parâmetro consiste num índice obtido pelo cálculo = espessura na inspiração – espessura na expiração ÷ espessura na expiração x 100. Este índice tem se mostrado um parâmetro viável e acurado para avaliar o funcionamento diafragmático e o esforço respiratório em pacientes ventilados e não ventilados. 31 crianças internadas na UTI do Linkou Chang Gung Memorial Hospital, com média de idade de 3 anos foram avaliadas. A média do tempo de VM foi de 7 dias e do tempo de UTI foi de 9 dias. O detalhe mais interessante do estudo diz respeito à diferença do FED entre o grupo que obteve sucesso na extubação (23.9%) e o que falhou a extubação (14.5%). Os autores concluíram que uma FED inferior a 17% está relacionada a falha na extubação5.
                                     Fig. 5

Com base em tais premissas pode-se inferir que o TMI na UTI pediátrica pode constituir uma importantíssima ferramenta, carecendo obviamente de ensaios que investiguem seus potenciais benefícios a curto e longo prazo. Como instrumentos para tal temos os resistores lineares como o Powerbreathe e o Treshold IMT, que são os dispositivos mais apropriados para este fim, por permitirem a adequação exata da carga instituída aos músculos respiratórios. Importante atentar para a questão do espaço morto gerado pelo dispositivo, que como dissemos no primeiro post não deve exceder 1.5ml/kg. Atualmente já existe resistor linear pediátrico, com espaço morto menor, como é o caso do The Breather (Fig.3). Entretanto, não se pode descartar a possibilidade da utilização dos incentivadores respiratórios (Fig.4), dada a praticidade, menor custo e vantagem de feedback visual, que para a criança pequena é essencial à adesão da terapia. O Respiron Kids, por exemplo, além de ter a traquéia e esferas coloridas, vem com uma cartela de adesivos que podem ser colados no equipamento com o objetivo de facilitar a visualização da meta a ser atingida (Fig. 5). Muitos acreditam que as evidências afirmam que o Respiron não traz resultados positivos. Na verdade, as principais revisões dizem que os estudos não possuem qualidade científica suficiente para provar a eficácia da terapia, o que é diferente de dizer que possui evidência de que não funciona. Na pediatria, por exemplo, temos alguns ensaios em crianças com anemia falciforme onde foi possível reduzir a incidência da síndrome torácica aguda, que é a principal complicação da doença. Isto é, a eficácia de uma terapia depende do objetivo da mesma, do protocolo utilizado, da característica clínica da população estudada, entre outros fatores.

                               Fig. 6

Outra crítica ao incentivador a fluxo diz respeito ao fato de não se poder quantificar a carga. De fato, não é possível, mas pode-se estimar a mesma tendo como base uma tabela de variação da carga, em cmH2O, de acordo com o nível estabelecido no equipamento e quantidade de esferas mobilizadas, disponibilizada pelo fabricante (Fig. 6). O modelo Kids, por exemplo, fornece carga estimada de 4 a 20 cmH2O. Neste sentido, seria de suma importância a realização de mais estudos com este dispositivo para fins de fortalecimento muscular respiratório na população infantil. Enquanto isto, ainda prefiro concordar plenamente com o amigo que possui a mais vasta expertise em TMI no país, Dr. Mateus Esquível: “Nessa idade faz Respiron!”.




Prof. MSc. Paulo Andrade
Mestre em Doenças Tropicais
Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica e Neonatal
Fisioterapeuta intensivista do Hospital Universitário HUJBB
Fisioterapeuta da UTI PED do Hospital de Clínicas HCGV
Docente de 05 cursos de Pós-Graduação em Terapia Intensiva
Orientador da LAFIPEN


Priscila Santos Lima
Acadêmica de Fisioterapia da UNAMA
Estagiária da FHCGV
Membro efetivo da LAFIPEN

Referências
·         1. Lima EVNCL, Lima WL, Nobre A , Santos AM, Brito LMO, Costa MRSRC. Inspiratory muscle training and respiratory exercises in children with asthma. J Bras Pneumol. 2008;34(8):552-558

·         2. Human A,  Corten L , Jelsma J , Morrow B. Inspiratory muscle training for children and adolescents with neuromuscular diseases: A systematic review. Neuromuscular Disorders 27 (2017)503-517

·         3. Woszezenki CT, Heinzmann-Filho JP, Donadio MVF. Inspiratory muscle training in pediatrics: main indications and technical characteristics of the protocols. Fisioter. Mov., Curitiba, v.30, Suppl 1, 2017, e-ISSN 1980-5918

·         4. Keles MN, Elbasana B, Apaydina U, Aribas Z, Bakirtas A, Kokturkc N. Effects of inspiratory muscle training in children with cerebral palsy: a randomized controlled Trial. Brazilian Journal of Physical Therapy 2018;22(6):493-501

·         5. Lee E, Hsia S, Hsiao H, Chen M, Lin J, Chan O, Lin C, Yang M, Liao S, Lai S. Evaluation of diaphragmatic function in mechanically ventilated children: An ultrasound study. . PLoS ONE 12(8): e0183560. https://doi.org/10.1371/journal. pone.0183560



Venha fazer parte e seja um membro da Liga da Fisiointensiva com este projeto que possui dois grandes objetivos: - O primeiro é a curadoria de conteúdos básicos e fundamentais para a realidade do fisioterapeuta intensivista, onde selecionamos os melhores professores com conhecimento de causa nas rotinas hospitalares. - O segundo é ajudar na atualização avançada acerca dos diversos temas da Fisioterapia Hospitalar trazendo curso com diversos profissionais. Bem vindo ao projeto mais inovador no cenário educacional da Fisioterapia intensiva do Brasil. O Clube de membros Fisioacademy MemberShip Clique no link e saiba mais: http://bit.ly/2yFEc57membersliga _________________________________________________________________________________

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O dilema da instilação do soro... versão pediatria

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O dilema da instilação do soro... versão pediatria

            A American Association of Respiratory Care (ARRC) publicou em 2010 uma recomendação de não se utilizar de forma rotineira a instilação de solução salina (SF) -Fig. 1 – durante o procedimento de aspiração de pacientes adultos sob ventilação mecânica invasiva (VM). Segundo esta renomada entidade os principais riscos dizem respeito à pneumonia associada à VM (PAV) e ao impacto tanto na oxigenação quanto na hemodinâmica.
            Mas e quanto aos pacientes pediátricos? Seguem as mesmas recomendações? Temos que concordar que a escassez de estudos no público infantil compromete de certa forma a formulação de protocolos, porém esta não deve ser uma justificativa para a grande resistência que encontramos ao se tentar modificar a cultura existente na maioria das unidades pediátricas (UTIP).
Um ensaio randomizado publicado em novembro do ano passado na Pediatric Critical Care, escrito por pesquisadores australianos, entre os quais a Dra. Dianna McKinley, enfermeira intensivista, dividiu 427 crianças em 03 grupos: sem instilação de SF, com instilação de SF a 0.9% e com instilação de SF a 0.225%. O desfecho primário avaliado foi o tempo de VM, enquanto que os desfechos secundários foram o tempo de oxigenoterapia e o tempo de estadia na UTIP.

                                Fig. 1

Não foi encontrada diferença estatística significante entre os grupos quanto aos diferentes desfechos, o que sugere que não instilar o soro fisiológico é, pelo menos, tão eficaz quanto instilar. Apesar disto, os autores afirmam que é possível existir um risco maior de infecção nosocomial com a instilação de SF, por realocar micróbios de vias aéreas mais proximais. Contudo, tal complicação não foi investigada no referido estudo.
Um detalhe interessante enfatizado na discussão foi a possível necessidade do uso rotineiro de SF em prematuros com TOT (tubo orotraqueal) de 2,5 mm. Todavia, nenhum dos 138 pacientes do grupo sem instilação teve registro de obstrução total do TOT, o que sugere que não é a instilação de soro que previne a obstrução, pelo menos em lactentes e crianças maiores.
Uma importante observação a se fazer é que os autores garantiram a umidificação em 100%, com TOT aquecido, ou seja, estes resultados não se aplicam a unidades que possuem dificuldades estruturais em se garantir tal umidificação e aquecimento do ar inspirado, como ocorre nos casos de bases aquecidas danificadas ou quando não há a devida preocupação em manter o copo sobre o termostato com o nível de água adequado.
Um dos grupos com SF teve duas ocorrências de hemorragia durante a aspiração. E, por fim, o detalhe que mais chama atenção é a quantidade máxima de soro instilada nos grupos com instilação: 0.5ml em lactentes e 1.0ml em maiores de 01 ano. Será que na prática clínica existe essa cautela? Será que se houvesse um grupo com instilação de 3 ou 4ml encontraríamos diferença significante? Afinal, esta quantidade parece estar mais próxima da realidade. Vale a reflexão.



Prof. MSc. Paulo Douglas Andrade
Mestre em Doenças Tropicais
Especializado em Terapia Intensiva e Gestão em Saúde
Especializando em Cuidados Paliativos
Fisioterapeuta intensivista do Hospital Universitário HUJBB
Fisioterapeuta da UTI PED do Hospital de Clínicas FHCGV
Docente de 05 cursos de Pós-Graduação em Terapia Intensiva
Orientador da LAFIPEN

REFERÊNCIA.


Venha fazer parte e seja um membro da Liga da Fisiointensiva com este projeto que possui dois grandes objetivos: - O primeiro é a curadoria de conteúdos básicos e fundamentais para a realidade do fisioterapeuta intensivista, onde selecionamos os melhores professores com conhecimento de causa nas rotinas hospitalares. - O segundo é ajudar na atualização avançada acerca dos diversos temas da Fisioterapia Hospitalar trazendo curso com diversos profissionais. Bem vindo ao projeto mais inovador no cenário educacional da Fisioterapia intensiva do Brasil. O Clube de membros Fisioacademy MemberShip Clique no link e saiba mais: http://bit.ly/2yFEc57membersliga _________________________________________________________________________________

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Terapia Muscular Respiratória na Fonoaudiologia





Terapia Muscular Respiratória na Fonoaudiologia



A terapia muscular respiratória (TMR) é amplamente estudada como uma modalidade de tratamento da fraqueza muscular respiratória e também uma estratégia para aumentar a performance de atletas. As pesquisas na área tem incluído cada vez mais grupos de indivíduos com patologias diversas tais como DPOC, Parkinson, TRM e outras condições como, por exemplo, idosos sedentários. Contudo, as investigações que vem interessado cada vez mais aos fonoaudiólogos se referem a aplicação da terapia muscular respiratória como recurso na reabilitação nas áreas de voz e disfagia. 

A terapia muscular expiratória é a mais conhecida e estudada na área da Fonoaudiologia com uma vasta literatura, que permite embasamento cientifico para sua aplicação como recurso terapêutico. O fortalecimento da musculatura expiratória beneficia o suporte respiratório para a fala e o canto, assim como também possui correlação direta com a função de deglutição. O acionamento destes músculos gera uma contração cruzada do grupo muscular supra-hióideo sendo, esses últimos, responsáveis pelos movimentos de excursão do complexo hiolaríngeo que é imprescindível para a eficácia da deglutição. Há mais benefícios com impacto direto na proteção da via aérea sendo eles o aumento da adução das pregas vocais e a melhora da eficiência da tosse. 

O fortalecimento da musculatura inspiratória, proporcionado pela terapia muscular inspiratória (TMI), também vem ganhando campo dentro dos estudos na área da reabilitação fonoaudiológica. A TMI permite aumentar o volume pulmonar o que consequentemente gera maior pressão subglótica, proteção de via aérea e aceleração do tempo de ativação da fase faríngea da deglutição. Também traz proveitos relacionados a possibilidade de melhorar a abdução das pregas vocais. 

A prescrição fonoaudiológica do TMR deve ser guiado pelos princípios básicos de um treinamento de força que levam em consideração a intensidade do estímulo (que deve ser o suficiente para provocar mudança na função muscular), o estabelecimento do grupo muscular alvo, carga, frequência e duração. Para tanto é necessário que o fonoaudiólogo tenha acesso aos valores das pressões respiratórias máximas (PImax e PEmax) e raciocínio crítico em cima da fisiopatologia da doença de base de seu paciente levando-se em conta as condições clínicas que o mesmo apresenta. 

Um ponto de grande importância clínica deve ser considerado: a fadiga. O TMR não gera somente fadiga muscular respiratória mas também fadiga da musculatura relacionada a deglutição e pesquisas já demonstram que deglutições que ocorrem sob condições fadigadas podem aumentar os riscos de aspiração laringotraqueal.


https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29254116
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26803525
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21098406




Tamara Elisa Rocha Braga 
Fonoaudióloga 
Especialização em Deglutição , Voz e Fala nas alterações neurológicas e oncológicas ;
Aprimoramento em Fonoaudiologia Hospitalar;
Coordenadora do Serviço de Fonoaudiologia do Hospital Madre Teresa - BH / MG ;
Membro do departamento de Fonoaudiologia da SOMITI 
Membro da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia
Fonoaudióloga do Vent-Lar - Excelência em Ventilação Mecânica Domiciliar

segunda-feira, 25 de março de 2019

VALE À PENA POSICIONAR BEBÊS GRAVES NA REDE?

VALE À PENA POSICIONAR BEBÊS GRAVES NA REDE?

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A utilização de redes no ambiente da UTI tanto pediátrica quanto neonatal não se trata de uma conduta rotineira, pelo menos não na grande maioria das unidades. Mas será que esse procedimento traria alguma vantagem aos bebês em condição crítica? Ou seriam os riscos maiores que os possíveis benefícios? Vejamos o que as evidências trazem a respeito...

Um estudo transversal publicado em 2018 avaliou 8 prematuros internados em uma UTI neonatal, todos ventilados mecanicamente ou em uso de oxigenoterapia, sendo posicionados na rede por 2 horas. Tal procedimento influenciou positivamente nas variáveis cardiorrespiratórias (diminuição da FC, FR e intensidade da dor, além de aumento na SpO2).

                                Fig. 1

Outra pesquisa publicada na Pediatric Physical Therapy avaliou vinte prematuros com muito baixo peso (MBP) para comparar a influência da posição supina em rede versus a posição prona no ninho na maturidade neuromuscular, crescimento e estabilidade autonômica. Cada grupo teve 10 bebês que foram mantidos no referido posicionamento durante 3 horas/dia por 10 dias consecutivos. O posicionamento supino em rede foi associado a um maior escore de maturidade neuromuscular (p <0,003) e uma condição mais relaxada, expressa por menor frequência cardíaca e respiratória (p <0,05 e p <0,01, respectivamente), provando que a rede pode afetar positivamente na estabilidade autonômica e na maturidade neuromuscular.
Em se tratando de pediatria, um ensaio clínico randomizado publicado na Acta Pediatrica em 2014 preocupou-se em avaliar a segurança de lactentes posicionados na rede após o relato de duas crianças encontradas mortas nos EUA ao serem adormecidas na rede infantil. Foi levantada a hipótese de prejuízo na oxigenação por uma flexão cervical do bebê posicionado em rede, dada a anatomia particular das vias aéreas do lactente jovem. 24 lactentes foram recrutados, sendo 14 randomizados para dormir em redes e 10 em berços. Não houve diferenças na apneia obstrutiva ou oxigenação entre os grupos, sugerindo que a rede não comprometeu a perviedade via aérea superior.

                             Fig. 2

Por fim, um estudo nacional recente (Leonel et al, 2018) realizado em UTI neonatal encontrou que os bebês prematuros posicionados em rede tiveram como principais benefícios: melhor ganho de peso, melhor desenvolvimento sensorial e motor, além de maior redução dos níveis de stress.
A ideia de posicionar os bebês em redes se deu pela necessidade de se buscar um ambiente semelhante ao útero materno. Os RN prematuros internados em UTI são geralmente mais irritados e chorosos, pois saíram do ambiente aconchegante intraútero e encontram-se agora em ambiente hostil, longe do colo materno.

                            Fig. 3

Na UTI neonatal podem-se ter redes confeccionadas para este fim, assim como é possível improvisá-las utilizando os lençóis, ataduras e esparadrapo da própria unidade. O improviso permite que a rede seja ajustada mais aberta, fixando pelas laterais da incubadora (Fig. 1) ou mais fechada, passando a fixação pelo centro da incubadora (Fig. 2). Na UTI pediátrica a rede pode ser fixada na grade do leito (Fig. 3) ou mesmo em suportes de soro ou qualquer outra superfície rígida, como suporte do monitor ou válvula redutora da rede de gases (Fig. 4).
A intenção do uso da rede é a realização de uma terapia mais humanizada, pois ao permanecerem no ambiente de UTI os RN recebem vários estímulos que interferem em seu desenvolvimento de forma prejudicial, como ruídos, luzes, estresse, dor, troca de fralda, punção e demais procedimentos invasivos, fazendo com que haja desorganização postural e comportamental, agitação, gasto energético, perda de peso, entre outros.

                            Fig. 4

A rede de descanso terapêutica tem a finalidade de recriar o ambiente uterino, permitindo o aquecimento do RN, menor gasto energético (com consequente aumento do peso), melhor qualidade do sono e adoção de uma postura que auxilia no desenvolvimento neuropsicomotor e no desmame ventilatório. Neste sentido, faz-se necessária uma revisão de conceitos para que as unidades neonatais e pediátricas estimulem mais a adoção deste posicionamento, cuja segurança já foi comprovada e que, além dos benefícios para o RN ou lactente, minimiza a má impressão que a UTI causa aos pais e visitantes.

                                                    Prof. MSc. Paulo Andrade
Mestre em Doenças Tropicais
Fisioterapeuta intensivista do Hospital Universitário HUJBB
Fisioterapeuta da UTI PED do Hospital de Clínicas FHCGV
Título de Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica e Neonatal
Docente de 05 cursos de Pós-Graduação em Terapia Intensiva
Orientador da LAFIPEN


Danielle Nascimento
Acadêmica de Fisioterapia da UNAMA
Coordenadora de Comunicação da LAFIPEN

REFERÊNCIAS

http://www.seer.unirio.br/index.php/cuidadofundamental/article/view/5988

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